Quelimane, Mocuba, Alto Molócuè e Gurué formam a espinha dorsal do narcotráfico provincial, enquanto mais de 300 kg de estupefacientes foram apreendidos só no último ano.
A província da Zambézia enfrenta um desafio crescente de segurança pública. As autoridades provinciais identificaram oficialmente quatro municípios Quelimane, Mocuba, Alto Molócuè e Gurué como os principais corredores do tráfico de drogas na região. O alerta foi lançado esta segunda-feira, durante a abertura da Semana de Luta Contra as Drogas, num momento em que os dados revelam que mais de 300 quilogramas de estupefacientes foram intercetados na província ao longo de 2025, e plantações ilegais de cannabis foram destruídas em várias localidades.
Uma rota que começa no oceano e termina no interior
O cenário descrito pelas autoridades da Zambézia não é isolado. De acordo com investigações conduzidas pelo Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), a praia de Zalala, em Quelimane, Macuse, no distrito de Namacurra, e Pebane funcionam como pontos de entrada de narcóticos, sendo o distrito de Mocuba o epicentro da distribuição para o interior do país um padrão que as autoridades judiciais da Zambézia acompanham com crescente preocupação, segundo reportagem da revista Integrity Magazine.
Esta geografia do tráfico insere-se numa dinâmica mais vasta. Conforme documenta o Gabinete Central de Prevenção e Combate à Droga (GCPCD) no seu Relatório Anual sobre a Evolução do Consumo e Tráfico Ilícitos de Drogas, Moçambique é apontado por várias organizações internacionais como um corredor de trânsito para o tráfico de estupefacientes com destino à Europa e aos Estados Unidos, sendo a rota Afeganistão-Paquistão-Pemba-Zambézia-Maputo-África do Sul uma das principais vias para heroína, metanfetamina e anfetamina. A Zambézia, neste mapa, não é ponto de chegada é passagem e distribuição.
300 kg apreendidos, mas o problema persiste
Durante a cerimónia de abertura da Semana de Luta Contra as Drogas, Beato Dias, Director do Gabinete Provincial de Prevenção e Combate às Drogas da Zambézia, revelou que ao longo de 2025 foram confiscados mais de 300 quilogramas de diferentes tipos de estupefacientes na província, incluindo cannabis sativa localmente conhecida por suruma cuja produção foi desmantelada em várias machambas ilegais espalhadas pela região.
Os números provinciais integram-se num contexto nacional documentado. Segundo o relatório anual do GCPCD, divulgado em abril de 2026, Moçambique apreendeu em 2025 mais de quatro toneladas de drogas diversas, avaliadas em cerca de 181 milhões de meticais, o equivalente a 2,4 milhões de euros.
O desemprego que abre portas ao tráfico
A dimensão social do problema foi sublinhada por Amisse Consolo, Presidente do Conselho Provincial da Juventude da Zambézia, que alertou para o papel determinante da exclusão económica na vulnerabilidade dos jovens. Segundo o responsável, o desemprego estrutural, a escassez de oportunidades e um sentimento generalizado de frustração empurram rapazes e raparigas para as redes de tráfico seja como consumidores, transportadores ou vendedores de rua.
Esta relação entre pobreza e narcotráfico tem consequências documentadas a nível nacional. De acordo com o Ministério da Saúde de Moçambique, citado pelo GCPCD, o número de pessoas atendidas nos hospitais por consumo de drogas registou um aumento de 38% em 2025, totalizando 32.281 casos, com o Estado a despender mais de 88 milhões de meticais no tratamento de dependentes.
Drogas, criminalidade e doenças: uma cadeia invisível
Beato Dias foi direto ao apontar as consequências colaterais do fenómeno: o tráfico e o consumo de estupefacientes não geram apenas dependência química. Criam condições para o crescimento da criminalidade violenta e ampliam a propagação de infeções sexualmente transmissíveis, incluindo o VIH um ciclo que sobrecarrega os serviços de saúde e compromete a coesão comunitária em distritos já fragilizados economicamente.
84 mil pessoas sensibilizadas, mas o caminho é longo
A resposta institucional ganhou escala ao longo do ano. Dados apresentados durante a cerimónia indicam que, desde janeiro, cerca de 831 ativistas antidroga percorreram a Zambézia realizando 318 sessões de sensibilização, chegando a mais de 84 mil pessoas em diferentes pontos da província.
Na Escola Secundária Geral Eduardo Mondlane, em Quelimane, o Director Adjunto Pedagógico Sérgio Jamal confirmou a existência de um núcleo escolar de prevenção, embora reconheça que o consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens continua a ser a ameaça mais presente no ambiente escolar um sinal de que o problema começa antes das drogas ilícitas.
A nível nacional, segundo o GCPCD, em 2025 foram ministradas cerca de 60 mil palestras de sensibilização, beneficiando mais de 2,7 milhões de pessoas em todo o país. Os esforços existem, mas as autoridades reconhecem que a prevenção isolada não neutraliza redes com ramificações internacionais.
Lema que desafia à acção
A Semana de Luta Contra as Drogas prolonga-se até 26 de junho, data em que se assinala o Dia Internacional de Luta Contra o Tráfico e Consumo Ilícito de Drogas, sob o lema "A evidência é clara: vamos investir na prevenção do consumo e tráfico de drogas" um apelo que exige financiamento, políticas públicas integradas e resposta coordenada entre segurança, saúde e educação.
Para a Zambézia, a questão é urgente. Com quatro cidades formalmente mapeadas como corredores ativos de narcotráfico, a província está na linha da frente de uma crise que, segundo o GCPCD, coloca Moçambique como rota de trânsito para a África do Sul e para a Europa e a Zambézia como uma das suas portas de passagem mais vulneráveis

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