Fundação Tzu Chi distribui 95 toneladas de arroz em Maputo, Gaza e Sofala, numa resposta que cobre uma fracção das mais de 870 mil pessoas afectadas pelas inundações deste ano em Moçambique
Desde ontem, 4.384 famílias vulneráveis das províncias de Maputo, Gaza e Sofala começaram a receber arroz através de uma campanha humanitária da Fundação de Caridade Tzu Chi Moçambique. A acção, que prevê a entrega de 95 toneladas do cereal até sexta-feira, 19 de Junho, surge como resposta directa aos estragos das cheias que atingiram o centro e sul do país no início de 2026 e que, segundo dados oficiais, deixaram mais de 870 mil pessoas afectadas entre Outubro de 2025 e Março deste ano.
Quem recebe e onde
A distribuição abrange 4.384 agregados familiares, divididos de forma desigual entre as três províncias: Gaza concentra a maior fatia, com 2.464 famílias beneficiadas, seguida por Maputo, com 1.069, e Sofala, com 851. A escolha destas três províncias não é arbitrária foram, em conjunto, as mais duramente atingidas pela vaga de cheias que assolou o país desde o final de 2025.
A dimensão da crise por detrás da ajuda
Para entender o que representam estas 4.384 famílias, é preciso olhar para o quadro mais amplo. Segundo dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres, entre Outubro de 2025 e Março de 2026 o país registou 872.569 pessoas afectadas, correspondentes a 201.449 famílias, além de 270 óbitos, 333 feridos e 10 desaparecidos . As mesmas três províncias contempladas pela campanha da Tzu Chi Maputo, Gaza e Sofala foram identificadas como as mais afectadas do país.
A província de Gaza, que recebe agora a maior parcela de arroz, foi também aquela onde a crise assumiu contornos mais graves: em Fevereiro, autoridades locais estimavam que cerca de 40% do território provincial estivesse submerso, com mais de 150 quilómetros de estradas inutilizados, dificultando o próprio acesso de ajuda humanitária às populações isoladas. No distrito da Manhiça, em Maputo, só por si, mais de 12.900 famílias e 63 mil pessoas foram afectadas, segundo dados oficiais.
O impacto não se limitou às habitações. Em Março, o Governo revelou ao parlamento que as inundações destruíram total ou parcialmente cerca de 50 quilómetros de redes de abastecimento de água em cinco províncias, afectando perto de 900 mil pessoas, além de prejuízos superiores a 31 milhões de euros só no sector hoteleiro de Gaza.
O que está a ser entregue e porquê o arroz
Segundo comunicado da organização, a campanha resulta da mobilização internacional de voluntários da Tzu Chi e integra os esforços mais amplos de recuperação das zonas atingidas. O presidente da Fundação, Dino Foi, explicou que a iniciativa pretende reforçar o apoio prestado durante a fase de emergência e ajudar as famílias na transição para a recuperação.
A escolha do arroz como produto central da distribuição responde a uma lógica comum em respostas humanitárias pós-desastre: trata-se de um alimento de fácil armazenamento, elevado valor nutricional e rápida distribuição em larga escala, particularmente relevante em zonas onde a produção agrícola local foi destruída pelas águas e onde a insegurança alimentar tende a agravar-se nos meses seguintes a uma calamidade.
O que vem a seguir
A organização sinalizou que esta distribuição de arroz não é o fim do apoio às comunidades afectadas. Segundo a mesma fonte, a Fundação Tzu Chi prevê continuar com iniciativas humanitárias nestas regiões, incluindo a distribuição de sementes e outros produtos essenciais um sinal de que a resposta tende a evoluir da fase de emergência alimentar imediata para o apoio à retoma da produção agrícola das famílias afectadas, um processo que tende a ser mais lento e que depende da reabilitação de terrenos e infra-estruturas ainda danificados.
O contexto que não deve ser esquecido
Vale notar que este apoio chega numa altura em que o Governo moçambicano já alertou para a possibilidade de novos desafios climáticos na época 2026/2027: previsões oficiais apontam para seca nas regiões sul e centro do país e cheias na região norte , devido à influência do fenómeno El Niño. Isto significa que iniciativas como a da Tzu Chi, embora essenciais no imediato, surgem num cenário em que a vulnerabilidade climática de Moçambique está longe de ser resolvida e em que as mesmas províncias hoje beneficiadas podem voltar a enfrentar cenários de risco nos próximos meses.
Fontes: ActionAid Mozambique, AIM News, ONU News, Correio da Manhã Canadá/Lusa

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