Presidente da República defende uma economia de ligações entre grandes projectos, empresas nacionais, agricultura, indústria, formação e emprego, alertando que crescimento económico não significa necessariamente desenvolvimento.
O Presidente da República, Daniel Chapo, defendeu uma mudança na forma como Moçambique deve encarar os grandes investimentos, argumentando que a riqueza gerada pelos projectos de grande dimensão deve estar ligada à economia nacional e produzir benefícios concretos para a população.
Ao discursar na abertura do Mozambique CEO Summit 2026, em Maputo, o Chefe do Estado criticou o risco de um modelo de desenvolvimento em que grandes investimentos geram riqueza sem estabelecer ligações suficientes com as empresas nacionais, os trabalhadores e as famílias moçambicanas.
“Não queremos um desenvolvimento de enclaves, onde a riqueza convive com a exclusão. Queremos uma economia de ligações entre os grandes investimentos e as micro, pequenas e médias empresas; entre a energia e a indústria; entre a agricultura e o mercado; entre a formação e o emprego; entre o crescimento económico e a melhoria efectiva na vida das famílias moçambicanas”, afirmou Daniel Chapo.
“Nem sempre o crescimento é o desenvolvimento”
Na sua intervenção, o Presidente estabeleceu uma distinção entre crescimento económico e desenvolvimento, defendendo que o aumento da actividade económica deve ser acompanhado por melhorias concretas nas condições de vida da população.
“Porque nem sempre o crescimento é o desenvolvimento. Nós queremos crescimento acompanhado com desenvolvimento”, declarou.
A afirmação coloca no centro do debate a questão sobre a qualidade e a distribuição dos benefícios resultantes do crescimento económico. Para o Executivo, não basta que o país atraia investimentos ou aumente os indicadores macroeconómicos. É necessário que os resultados desse crescimento sejam sentidos pelas famílias e criem oportunidades para os cidadãos.
Grandes investimentos devem estar ligados às PME
Um dos pontos destacados pelo Presidente é a necessidade de reforçar a ligação entre os grandes investimentos e as micro, pequenas e médias empresas moçambicanas.
A participação das PME nas cadeias de fornecimento dos grandes projectos é considerada uma das vias para aumentar o impacto da actividade económica no mercado nacional. No entanto, muitas empresas locais enfrentam desafios relacionados com acesso ao financiamento, capacidade técnica, certificação, tecnologia e recursos humanos especializados.
A integração efectiva das PME exige, por isso, mais do que uma orientação política. Será necessário criar condições para que as empresas nacionais tenham capacidade de competir, cumprir padrões de qualidade e responder às exigências dos grandes investidores.
O desafio passa também por garantir que as oportunidades de negócio geradas pelos grandes projectos não fiquem concentradas apenas em empresas estrangeiras ou em segmentos limitados da economia.
Da energia à indústria: o desafio de criar cadeias de valor
Ao defender uma economia de ligações “entre a energia e a indústria”, Daniel Chapo aponta para a necessidade de Moçambique aumentar o valor económico obtido a partir dos seus próprios recursos.
A questão é particularmente relevante num país com importantes recursos naturais e grandes projectos nos sectores de energia e mineração.
A transformação desses recursos em oportunidades industriais pode contribuir para criar empregos, desenvolver fornecedores nacionais e ampliar a actividade económica. No entanto, isso depende da existência de infra-estruturas adequadas, capital, tecnologia, mão-de-obra qualificada e políticas capazes de estimular o investimento produtivo.
A ideia apresentada pelo Presidente sugere, assim, uma visão em que os grandes investimentos devem funcionar como motores para outros sectores da economia, em vez de operarem de forma isolada.
Agricultura e mercado: aproximar produção e consumo
Outro elo destacado no discurso presidencial é a ligação entre a agricultura e o mercado.
Para Moçambique, onde a agricultura desempenha um papel central na subsistência e no rendimento de muitas famílias, a existência de mercados capazes de absorver a produção nacional é fundamental.
A ligação entre produtores, agro-indústria e consumidores pode ajudar a reduzir perdas, aumentar o valor dos produtos agrícolas e criar novas oportunidades de rendimento.
Neste contexto, o desafio não está apenas em aumentar a produção, mas também em garantir acesso a financiamento, transporte, armazenamento, processamento e mercados.
Formação e emprego: transformar qualificação em oportunidade
Daniel Chapo também destacou a necessidade de fortalecer a ligação entre a formação e o emprego.
A expansão de grandes projectos económicos aumenta a procura por trabalhadores com competências específicas. Contudo, sem uma ligação efectiva entre os sistemas de formação e as necessidades do mercado, parte da população pode continuar excluída das oportunidades criadas pelos investimentos.
A formação profissional e técnica assume, por isso, um papel estratégico na preparação dos jovens e trabalhadores para sectores com maior potencial de crescimento.
O desafio será garantir que a qualificação não termine apenas na formação, mas conduza efectivamente ao emprego e à criação de oportunidades económicas.
O verdadeiro teste será transformar a orientação em resultados
A declaração de Daniel Chapo estabelece uma orientação política clara: o crescimento económico deve estar ligado ao desenvolvimento e à melhoria efectiva da vida das famílias.
Mas o principal desafio começa agora: transformar esse princípio em políticas e resultados concretos.
A avaliação do impacto dos grandes investimentos poderá passar por indicadores como o número de empregos criados para moçambicanos, a participação das PME nos contratos de fornecimento, o desenvolvimento de fornecedores nacionais, a transferência de tecnologia e o crescimento de actividades económicas ligadas aos grandes projectos.
Também será necessário acompanhar se os investimentos contribuem para desenvolver sectores produtivos e reduzir desigualdades económicas.
A questão central que fica colocada é, portanto, se Moçambique conseguirá transformar o crescimento dos seus grandes investimentos em desenvolvimento económico inclusivo.
A mensagem deixada pelo Presidente Daniel Chapo no Mozambique CEO Summit 2026 aponta para essa direcção: o país não quer apenas crescer; quer que o crescimento esteja ligado às empresas nacionais, à indústria, à agricultura, à formação, ao emprego e, sobretudo, à melhoria efectiva da vida das famílias moçambicanas.
