O governo moçambicano já iniciou as medidas de contenção para enfrentar o fenómeno climático El Niño, que promete dividir o país em dois extremos climáticos a partir de Outubro deste ano até Março de 2027. A decisão surge após previsões meteorológicas alarmantes que colocam em risco imediato a segurança alimentar, o abastecimento de energia e a estabilidade económica da nação.
A activação oficial do Plano de Acções Antecipadas foi anunciada por Luísa Meque, Presidente do INGD (Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres). O anúncio ocorreu em Maputo, durante a II Sessão Ordinária do Conselho Técnico de Gestão e Redução do Risco de Desastres. O plano responde directamente aos modelos climáticos apresentados pelo INAM (Instituto Nacional de Meteorologia).
O Mapa da Crise: Seca no Sul e Cheias no Norte
O El Niño actua através de anomalias na temperatura da superfície do Oceano Pacífico Equatorial, alterando drasticamente o regime de chuvas na África Austral. Em Moçambique, o impacto desenha um cenário de dupla crise geográfica:
Regiões Sul e Centro: Previsão de seca severa e prolongada. Províncias como Gaza, Inhambane, Tete e partes de Sofala enfrentarão escassez crítica de água.
Região Norte: Cenário oposto, com previsão de chuva forte e acima do normal, elevando o risco de cheias rápidas nas províncias de Cabo Delgado, Niassa e Nampula.
O Impacto Oculto: Inflação Alimentar e o Sector Privado
A verdadeira crise silenciosa desta viragem climática reside na macroeconomia e no bolso do cidadão, um factor frequentemente omitido nas comunicações oficiais.
A seca projectada para o celeiro agrícola do Centro e Sul ameaça reduzir drasticamente a produção de milho e hortícolas. Sem produção local, Moçambique será obrigado a aumentar as importações da África do Sul país que também enfrentará os efeitos do El Niño, o que historicamente gera uma subida em cadeia nos preços dos produtos básicos nos mercados de Maputo e da Beira.
No Norte, as chuvas excessivas ameaçam o corredor logístico de Nacala e os campos de produção de culturas de rendimento, como o gergelim e a castanha de caju, afectando directamente as exportações e as receitas cambiais do Estado.
O Nó Górdio Financeiro e Infraestrutural: O que Ninguém Está a Dizer
Embora o INGD apele a "acções coordenadas", a viabilidade do plano enfrenta barreiras estruturais severas que o portal detalha em exclusivo:
1. A Dependência de Fundos Externos
Historicamente, os fundos de contingência do Estado moçambicano cobrem menos de 30% do necessário para responder a desastres de grande magnitude. A execução real destas acções antecipadas depende da activação rápida de gatilhos internacionais, como o AAAF (Fundo de Financiamento de Acções Antecipadas) e seguros soberanos da African Risk Capacity. Sem a libertação imediata destas verbas, o posicionamento de ajuda humanitária falhará antes das primeiras crises.
2. Ameaça à Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) e ao Abastecimento de Água
A seca na bacia do Rio Zambeze pode reduzir drasticamente o caudal a montante (Zâmbia e Zimbabué), afectando a capacidade de geração de energia da HCB. A jusante, as barragens de Corumana e Pequenos Libombos, que abastecem o Grande Maputo (Maputo, Matola e Boane), correm o risco de atingir níveis críticos, o que poderá forçar a AdRA (Águas da Região de Maputo) a impor racionamentos severos de água potável já no final de 2026.
3. Solos Saturados no Norte
Após anos de ciclones consecutivos (como o Freddy e o Filipo), o solo no Norte perdeu a capacidade de absorção rápida. Quando as chuvas fortes começarem, o risco de enxurradas repentinas e deslizamentos de terra em Cabo Delgado e Nampula será exponencialmente maior, ameaçando campos de reassentamento de populações já vulneráveis.
A ordem de Luísa Meque exige que as direcções provinciais iniciem de imediato o posicionamento de bens não alimentares, purificadores de água e sementes de ciclo curto.
Para a população rural, o momento exige a transição rápida para culturas resilientes à seca (como a mandioca e o feijão nhemba) nas zonas Sul e Centro, e o reforço das coberturas das habitações e desobstrução de canais de drenagem nas províncias do Norte.
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