Apesar de liderar a produção agrícola em Moçambique, a província continua acima da média nacional de desnutrição crónica infantil. Autoridades e parceiros apontam os principais desafios e apresentam medidas para inverter o cenário.
QUELIMANE — A Zambézia continua a enfrentar um dos maiores desafios de saúde pública do país: a desnutrição crónica infantil. Embora seja uma das maiores produtoras de alimentos de Moçambique, a província mantém uma taxa de 43,7% de desnutrição crónica entre crianças menores de cinco anos, acima da média nacional de 37%.
Os dados foram apresentados durante a 5.ª Sessão Ordinária do Conselho Provincial de Segurança Alimentar e Nutricional (COPSAN), realizada a 13 de Julho de 2026, em Quelimane, sob a presidência do Secretário de Estado na Província da Zambézia, Avelino Pinto Muchine.
Segundo as informações divulgadas na reunião, baseadas no mais recente Inquérito Demográfico e de Saúde (IDS), Moçambique registou uma redução da desnutrição crónica de 43% para 37%. Contudo, a situação na Zambézia continua a exigir respostas coordenadas entre os sectores da agricultura, saúde, nutrição e desenvolvimento rural.
Produção elevada não se traduz automaticamente em melhor nutrição
Durante a sessão, o Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional (SETSAN) e parceiros apresentaram dados que mostram o potencial agrícola da província.
Na campanha agrícola mais recente, a Zambézia produziu cerca de:
- - 1,2 milhões de toneladas de milho;
- - 491 mil toneladas de feijão;
- - 207 mil toneladas de amendoim.
Apesar destes volumes, os participantes defenderam que persistem desafios relacionados com o acesso aos alimentos, conservação da produção, diversificação alimentar e processamento local.
Os desafios identificados
Entre os principais constrangimentos debatidos durante a reunião destacam-se:
- - alimentação pouco diversificada em muitas famílias;
- - limitações na armazenagem e conservação da produção agrícola;
- - venda precoce dos excedentes por falta de infra-estruturas adequadas;
- - reduzida capacidade de processamento e fortificação de alimentos produzidos localmente.
Segundo os participantes, estes factores contribuem para dificultar a melhoria dos indicadores nutricionais, sobretudo nas zonas rurais.
Distritos apresentam soluções com produtos locais
A sessão também destacou iniciativas desenvolvidas em vários distritos da província, onde comunidades produzem farinhas enriquecidas utilizando banana verde, mandioca, inhame, fruto-pão e amendoim.
De acordo com os intervenientes, estas soluções valorizam produtos locais e podem contribuir para diversificar a alimentação das crianças e das famílias.
Reforço do papel do ICM
Os participantes defenderam igualmente o fortalecimento da intervenção do Instituto de Cereais de Moçambique (ICM, IP), através da compra, armazenamento e redistribuição de excedentes agrícolas, como forma de reduzir perdas pós-colheita e melhorar a disponibilidade de alimentos nas zonas mais vulneráveis.
Programa Nutri-Norte reforça combate à desnutrição
Durante o encontro foi igualmente apresentado o programa Nutri-Norte, financiado pela União Europeia em mais de 35,5 milhões de euros, para apoiar acções na Zambézia, Nampula e Cabo Delgado.
As intervenções incluem:
- - expansão do acesso à água, saneamento e higiene (WASH);
- - monitorização nutricional de crianças;
- - suplementação com Vitamina A e desparasitação;
- - promoção de hortas familiares e educação alimentar baseada em produtos locais.
O que está em causa
As autoridades consideram que reduzir a desnutrição crónica é essencial para melhorar a saúde, o desempenho escolar e a produtividade futura da população.
Durante a sessão, foi defendido que o fortalecimento da comercialização agrícola, do armazenamento e do processamento local poderá contribuir para transformar o elevado potencial agrícola da Zambézia em melhores resultados para a segurança alimentar e nutricional das famílias.
