O registo trágico de 25 mortes maternas no período de um ano na Província de Maputo expõe uma ferida aberta na cobertura do Serviço Nacional de Saúde (SNS). O dado, revelado pelo Governador Manuel Tule no Distrito de Magude neste sábado, 11 de Julho de 2026, ganha contornos alarmantes quando confrontado com a realidade infraestrutural: 21% das unidades sanitárias da província não conseguem realizar um parto seguro.
Das 126 unidades existentes na província, 27 carecem completamente de blocos de maternidade e de Casas da Mãe Espera. Esta carência empurra milhares de grávidas para as mãos de parteiras tradicionais ou obriga-as a percorrer dezenas de quilómetros a pé em direção a uma das 99 unidades restantes, elevando exponencialmente o risco de complicações fatais.
FACTOR CRÍTICO: 80% das mortes por hemorragia pós-parto ocorrem nas primeiras 4 horas após o nascimento se não houver assistência médica especializada instantânea.
Sem uma maternidade no local e sem uma Casa da Mãe Espera para fixar a grávida nas semanas que antecedem o parto, o tempo de transporte torna-se o principal agente de mortalidade. Na Província de Maputo, distritos rurais com vias de acesso degradadas arrastam transferências médicas por horas, inviabilizando a administração a tempo de medicamentos essenciais como a oxitocina e o sulfato de magnésio.
Magude e o Desafio da Retenção de Profissionais de Saúde
A recente inauguração da maternidade e da Casa da Mãe Espera em Magude tenta estancar uma destas lacunas regionais. Contudo, o representante do Conselho Executivo Provincial indicou, de forma velada, que erguer as paredes de betão é apenas a primeira fase de um problema muito mais profundo.
O grande desafio que Moçambique enfrenta após a construção de novas infraestruturas é a sua dotação em recursos humanos qualificados. Para que a nova maternidade de Magude reduza eficazmente a taxa de óbitos, necessita de equipas fixas de Saúde Materno-Infantil (SMI) e técnicos de farmácia, num momento em que o rácio nacional de médicos e enfermeiros por habitante continua drasticamente abaixo das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Moçambique e o Compromisso com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
A nível nacional, o Ministério da Saúde (MISAU) tem sob os ombros a meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU: reduzir a taxa de mortalidade materna para menos de 70 mortes por cada 100.000 nados vivos até 2030.
A realidade reportada na Província de Maputo prova que, apesar dos avanços estruturais pontuais na província, o ritmo de investimento público em infraestruturas periféricas ainda está aquém do crescimento demográfico acelerado. Enquanto 27 clínicas continuarem de portas fechadas para grávidas em trabalho de parto, o índice de perdas humanas continuará a pressionar negativamente as estatísticas macroeconómicas de desenvolvimento do país.
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