O Ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Albino, lançou um dos maiores desafios económicos da presente legislatura: extinguir as importações de hortícolas em Moçambique até ao final de 2027.
O anúncio estratégico ocorreu nesta quinta-feira na província de Gaza, perante investidores estrangeiros e produtores locais das províncias de Gaza e Maputo, durante a cerimónia oficial do Dia Internacional do Campo.
A medida visa estancar a saída de divisas e forçar a industrialização rural. Contudo, o histórico de metas similares não cumpridas no país coloca este anúncio sob forte escrutínio analítico e social.
O Histórico das Promessas Agrícolas em Moçambique
A meta de alcançar a autossuficiência alimentar não é nova no discurso político moçambicano. Planos anteriores destinados a banir a importação de arroz, frango e tomate falharam sistematicamente na última década devido à falta de investimentos estruturais sustentáveis na base produtiva.
Actualmente, o mercado nacional em particular a região sul continua altamente dependente da África do Sul para o fornecimento de cebola, batata e tomate. O desequilíbrio é evidente no Mercado Grossista do Zimpeto, onde a regularidade e o preço competitivo do produto sul-africano sufocam frequentemente a produção de Chókwè e Moamba.
O Dilema do Preço: Chókwè vs. África Do Sul
As razões da dependência externa assentam na assimetria de custos de produção:
Escala e Subsídios: Os agricultores sul-africanos beneficiam de forte subsidiação, mecanização avançada e energia barata.
Custos Locais: Em Moçambique, o camponês enfrenta taxas de juro agrícolas proibitivas (frequentemente acima de 20%), sementes caras e combustíveis inflacionados.
O principal risco desta proibição alfandegária até 2027 é a inflação imediata no bolso do consumidor. Se a produção interna não atingir o volume e a regularidade necessários, o bloqueio das fronteiras resultará na escassez de alimentos e na subida drástica dos preços nos principais mercados urbanos.
O debate público foca-se na capacidade de semear, mas ignora o verdadeiro calcanhar de Aquiles do sector: a logística pós-colheita.
Moçambique regista taxas de desperdício agrícola que chegam a atingir 30% da produção em épocas de pico, motivadas pela total ausência de uma rede pública ou privada de câmaras de frio e armazenamento em Gaza e Maputo. Sem infraestruturas para conservar o excedente, os produtores locais enfrentam ciclos destrutivos de abundância (onde o preço desaba) e escassez extrema.
Além disso, a rede de transportes entre as zonas de produção e as capitais provinciais encarece o frete a ponto de tornar o produto nacional mais dispendioso do que o importado.
O Impacto Directo para o Cidadão Moçambicano
- O Governo terá de desenhar com urgência linhas de crédito bonificadas e subsidiar insumos agrícolas se quiser que os produtores dupliquem a área plantada nos próximos 18 meses.
- As famílias de média e baixa renda das zonas urbanas serão as primeiras a sofrer caso a transição falhe, enfrentando a perda de poder de compra na cesta básica alimentar.
- Se a meta for aplicada de forma cega, sem a devida infraestrutura logística e tecnológica no campo, o país poderá ver-se obrigado a recuar na medida ou a tolerar o aumento do contrabando nas fronteiras terrestres.
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