A promessa de massificação do Gás Natural Veicular (GNV) apresentada pelo Director-Executivo da Autogás, João das Neves, carrega um forte paradoxo económico. Enquanto Moçambique celebra contratos milionários de exportação de gás das bacias de Inhambane e Cabo Delgado, o cidadão comum continua asfixiado pelos preços da gasolina e do gasóleo.
A transição energética é descrita pela empresa como "irreversível", mas avança de forma lenta. O nó cego da massificação não reside na vontade dos automobilistas, mas sim nas barreiras financeiras e fiscais do próprio país.
O Custos de Instalação vs. Expansão
Embora o abastecimento com gás ofereça uma poupança directa substancial, a infraestrutura ainda avança a um ritmo tímido. Atualmente, a realidade do mercado de GNV em Moçambique assenta em apenas 7 postos de abastecimento activos, que se encontram severamente concentrados na Província e Cidade de Maputo, incluindo zonas como Machava, N4, Marracuene e o terminal da EMTPM.
Para tentar quebrar esta barreira geográfica, está em curso uma expansão financiada pela Sasol e pelo Banco Nacional de Investimento (BNI). Este plano prevê a abertura de 4 novos postos localizados estrategicamente nas províncias de Gaza e Inhambane, com destaque para a região de Chicumbane.
O objectivo estratégico a longo prazo traçado pelo sector é ambicioso: alcançar uma rede nacional de 20 postos de abastecimento até ao ano de 2035. Contudo, o grande travão para atingir esta meta continua a ser o ambiente de negócios nacional, marcado pela falta de incentivos fiscais específicos e pela aplicação de taxas aduaneiras elevadas que encarecem a importação de componentes fundamentais.
O Gargalo Fiscal: O que impede o gás de chegar ao Centro e Norte?
A distribuição nacional enfrenta um bloqueio geográfico e regulamentar crítico. Toda a infraestrutura actual e planeada está restrita ao sul do país. Províncias como Sofala, Tete ou Nampula continuam totalmente excluídas da rede de GNV, forçadas a depender do crude importado.
João das Neves aponta que as taxas de juro de mercado praticadas pela banca local não estão alinhadas com as necessidades de desenvolvimento do sector. Além disso, o preço de compra do gás pelo país precisa de ser "desdolarizado" para evitar flutuações cambiais. Sem incentivos alfandegários para a importação de kits de conversão e cilindros de alta pressão, o avanço é arrastado.
Impacto Social: O Reflexo Directo no Preço do "Chapa"
A transição para o gás tem impacto directo no custo de vida, especialmente através dos transportes semi-colectivos de passageiros, os "chapas". Sempre que o preço dos combustíveis líquidos sobe, os operadores exercem pressão para aumentar as tarifas urbanas.
Se a frota de transportes fosse convertida em massa nas rotas onde o gás já abunda, o preço das passagens ganharia imunidade contra os choques do mercado internacional. Contudo, falta em Moçambique uma legislação que obrigue ou apoie activamente os operadores de transportes públicos a adoptar o GNV.
Tendências Futuras e Próximos Passos
Para acelerar o ritmo, a Autogás tem vindo a subsidiar e reduzir os custos de conversão para os automobilistas particulares, tentando mitigar o investimento inicial elevado. A sustentabilidade do sector dependerá, contudo, de uma intervenção directa do Governo de Moçambique na criação de políticas fiscais favoráveis.
A reportagem completa que detalha estes dados e os novos investimentos na rota do sul vai para o ar hoje, às 20 horas, na Antena Nacional da Rádio Moçambique.
.webp)