A inteligência artificial já chegou aos quartos das crianças, mas o que parecia um companheiro inofensivo de brincadeiras transformou-se num caso de segurança digital. Um relatório técnico urgente emitido pela Secretaria Nacional de Direitos Digitais (Sedigi), órgão do Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil, revelou que brinquedos equipados com IA estão a violar as normas de privacidade e a recolher dados comportamentais de menores sem qualquer consentimento familiar.
O estudo, desenvolvido em parceria com investigadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFPE), analisou dispositivos populares no mercado internacional, incluindo o tablet Amazon Fire HD Kid Pro e os robôs de companhia Loona, EMO, Aibi, Miko 3 e Vector. Estes aparelhos possuem câmaras, microfones permanentes e ligação directa à internet, funcionando como autênticos canais de monitorização dentro de casa.
Do Afecto à Espionagem: O Risco Emocional Desenhado por Algoritmos
O perigo vai muito além do roubo de passwords. Os investigadores alertam para o facto de estes robôs utilizarem um design psicológico planeado para criar dependência emocional e vínculos afectivos profundos com crianças e adolescentes.
Ao misturar interacção afectiva com a recolha contínua de áudio e imagem, os dispositivos conseguem traçar perfis de consumo ultra-específicos das famílias. O Ministério da Justiça brasileiro comparou o cenário actual ao caso da boneca My Friend Cayla, que foi banida na Alemanha por ser considerada um "instrumento de espionagem" que gravava conversas privadas acessíveis por terceiros.
O Que Significa esta Ameaça para Moçambique?
Embora o alerta tenha partido de uma auditoria ao cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital no Brasil, o impacto atinge directamente Moçambique. O país vive um crescimento acelerado na importação de tecnologia e brinquedos inteligentes, que entram no mercado nacional através de plataformas de comércio electrónico (marketplaces) e lojas físicas sem qualquer barreira técnica ou aviso na embalagem.
Diferente do mercado brasileiro ou europeu, Moçambique ainda carece de uma moldura jurídica específica e robusta para a protecção de dados de menores no ambiente virtual. A Lei de Protecção de Dados Pessoais em Moçambique e a actuação do INTIC focam-se predominantemente no sector corporativo, bancário e na cibersegurança do Estado, deixando os consumidores infantis vulneráveis a esta recolha massiva de dados digitais.
Tendências Futuras e a Responsabilidade dos Importadores
A Sedigi recomendou que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abram investigações contra as empresas e plataformas que comercializam estes produtos. A orientação técnica estabelece que os marketplaces passem a ser responsabilizados solidariamente caso permitam a venda de dispositivos que omitam o uso de IA e a captura de dados de navegação.
A tendência global aponta para uma pressão internacional sobre os fabricantes para que incluam avisos explícitos e visíveis nas caixas dos produtos, alertando sobre a necessidade de supervisão parental obrigatória. À medida que a IA se torna mais barata, a entrada destes aparelhos em território moçambicano tende a massificar-se, exigindo uma actualização urgente das normas alfandegárias e de defesa do consumidor
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