terça-feira, 30 de junho de 2026

Chissano critica distanciamento das academias e exige que o ensino superior sirva o povo

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Chissano critica distanciamento das academias e exige que o ensino superior sirva o povo

​O antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, lançou uma crítica contundente ao actual modelo do ensino superior no país. Durante uma palestra em Maputo, o antigo estadista afirmou categoricamente que as universidades moçambicanas continuam "distantes do quotidiano da população" e exigiu que a produção científica se traduza em benefícios práticos e imediatos para as comunidades locais.

​O posicionamento foi partilhado na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a instituição de ensino superior mais antiga do país, durante as celebrações oficiais dos 50 anos da atribuição do nome do arquitecto da unidade nacional, Eduardo Chivambo Mondlane.


​O diagnóstico da liderança: Discursos vs. Prática Social

​Para Joaquim Chissano, existe um fosso perigoso entre a elite académica e a base social moçambicana. O antigo Chefe do Estado reconheceu o esforço e o trabalho de investigação já desenvolvido pelas academias, mas apontou que o conhecimento produzido fica muitas vezes retido em bibliotecas ou gabinetes ministeriais.

​"Fazemos investigação, escrevemos, o Presidente vem aqui, discursa, e pensamos que o discurso do Presidente está lá e que o povo vai utilizar. Não é assim. O povo fica ainda um pouco afastado", desabafou o antigo estadista.

​A crítica toca no cerne do desenvolvimento inclusivo. O antigo governante defendeu que o grande desafio actual já não é apenas o de "levar conhecimento" de forma paternalista, mas sim garantir que a instituição se integre e coabite com as reais necessidades da população nas províncias e distritos.


​O Impacto Socioeconómico: O que Moçambique perde com o isolamento académico

​A análise crítica de Chissano revela três ramificações estruturais que afectam directamente o desenvolvimento de Moçambique:

  • ​Desperdício de Recursos Públicos: Milhões de meticais são canalizados anualmente para investigações académicas que não chegam a ser aplicadas no sector produtivo ou na resolução de crises cíclicas, como as cheias ou a insegurança alimentar.
  • ​Falta de Inovação Local: Setores cruciais da economia moçambicana, como a agricultura de subsistência e o comércio informal, continuam sem o suporte técnico e a inovação tecnológica que a UEM e outras universidades deveriam fornecer directamente no terreno.
  • ​Perguntas Sem Resposta: Como é que Moçambique pretende alcançar a industrialização se as teses de licenciatura, mestrado e doutoramento não dialogam com as Pequenas e Médias Empresas (PMEs) locais? Este descompasso perpetua a dependência de consultorias estrangeiras.


​O Legado de Mondlane e a Desconexão Curricular Actual

​A celebração dos 50 anos do nome da Universidade Eduardo Mondlane traz uma ironia histórica que poucos decidiram abordar. Eduardo Mondlane concebeu a educação como a ferramenta central para a libertação total do homem moçambicano.

​Quando a maior universidade do país celebra este marco sob a crítica de que "o povo ainda está afastado", fica evidente que a academia se burocratizou. O modelo actual prioriza títulos em detrimento do impacto social. Para que o cenário mude, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior terá de rever os critérios de financiamento público, indexando os orçamentos das universidades ao número de projectos comunitários e patentes industriais implementados com sucesso nas comunidades.

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