Maputo, Moçambique- A presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), Graça Machel, afirmou que o desenvolvimento sustentável depende mais do conhecimento e das dinâmicas internas das comunidades do que do financiamento externo, durante um evento realizado na Universidade Politécnica.
Dirigindo-se a representantes da sociedade civil, parceiros internacionais e estudantes, Machel criticou abordagens assistencialistas ainda dominantes em programas de desenvolvimento.
“As comunidades existiam antes de nós e continuarão a existir depois de nós”, declarou, defendendo que o foco deve ser “trabalhar com as comunidades e não para as comunidades”.
Mudança de paradigma no desenvolvimento local
A antiga ministra da Educação sublinhou que muitas intervenções falham por ignorarem estruturas sociais e conhecimentos já existentes nas comunidades.
Segundo Machel, a sustentabilidade passa pela capacidade das populações definirem o seu próprio futuro com base em valores locais, lideranças tradicionais e participação inclusiva.
Ela alertou ainda para a necessidade de estudos aprofundados antes de qualquer intervenção, de forma a compreender a diversidade de contextos e actores locais.
Mulheres e jovens no centro das soluções
Outro ponto crítico destacado foi a inclusão de mulheres e jovens nos processos de decisão.
Para Machel, estes grupos continuam sub-representados, apesar de desempenharem um papel fundamental na construção de soluções duradouras.
A activista defendeu políticas que reforcem a participação activa destes segmentos como forma de garantir impacto social sustentável.
Filantropia além do financiamento
A presidente da FDC também desafiou a visão tradicional de filantropia, frequentemente associada apenas a recursos financeiros.
“O dinheiro facilita, mas pode faltar. O saber fica sempre”, afirmou.
Segundo ela, valorizar o conhecimento local é essencial para criar soluções resilientes e independentes de financiamento externo.
Plataformas impulsionam inovação e emprego
O evento incluiu a apresentação de duas iniciativas com impacto comprovado:
JUNTOS!MZ, apresentada por Lina Inglês, reúne 26 organizações e aposta na capacitação institucional para melhorar a intervenção comunitária.
O modelo Planet Learning, integrado na plataforma, já alcançou mais de 1 milhão de beneficiários, combinando formação digital e presencial para ampliar o acesso ao conhecimento.
Já o programa Work4Progress, apresentado por Rosânia da Silva, foca-se na criação de emprego para mulheres e jovens.
A iniciativa, promovida pela Fundação la Caixa, opera com base em quatro etapas: escuta, co-criação, prototipagem e aceleração.
Em termos globais, o programa já:
-Beneficiou mais de 250 mil pessoas
-Criou dezenas de milhares de empregos
-Apoiou milhares de negócios, sobretudo com impacto climático positivo
Coordenação entre organizações é chave
Machel destacou ainda a necessidade de maior articulação entre organizações que actuam no terreno, criticando intervenções fragmentadas.
Para a responsável, a complementaridade de esforços pode aumentar significativamente o impacto das acções de desenvolvimento.
A intervenção de Graça Machel reforça um debate crítico no sector do desenvolvimento: a dependência excessiva de financiamento externo pode comprometer soluções sustentáveis.
Ao colocar o conhecimento local no centro, a líder moçambicana propõe um modelo mais resiliente, inclusivo e adaptado à realidade das comunidades
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